Divisão de Música

 

O artigo Minhas Memórias da UNESCO (a música nas relações internacionais) 1947-1965, escrito por Luiz Heitor, informa fatos e experiências do musicólogo à frente dos trabalhos do setor de música do órgão internacional. A seguir, alguns tópicos destacados do artigo, que retratam situações vividas por Luiz Heitor quando assume a função no órgão de direção dos Serviços de Música da UNESCO (Lamas, 1985):

Fundação da UNESCO e do IBECC

Em 1945 a UNESCO, Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas, havia sido fundada, em Londres, por ocasião de uma conferência de ministros da educação a que o Brasil não havia comparecido. Mas lá estava Paulo Carneiro, depois feito delegado permanente e embaixador de nosso país junto a essa organização, figura inseparável da mesma e sem a qual, certamente , ela não seria, hoje, aquilo que é. Sua presença moldou certas faces da UNESCO. (...)

Em 1946 o ministro das relações exteriores do Brasil, João Neves, criava o IBECC, Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, destinado a ser a Comissão Nacional da UNESCO no Brasil. Por essa época eu não sabia muito bem – como muita gente boa não sabe até hoje – o que era a UNESCO. A sigla, em todo caso, lembrava, pela sua assonância, nomes romenos: Enesco, o violinista, Ionesco, autor teatral... Aquilo podia ser uma agência de informações, um centro de professores ou sabe lá Deus que coisa mais... Foi quando um dia recebi uma convocação para comparecer ao Itamarati, onde o meu amigo Renato Almeida me explicou o que era o IBECC, que deveria instalar-se em breve, e insistiu para que eu aceitasse o posto de segundo secretário. Aceitei; e assim começou a minha associação com a UNESCO, de que o IBECC era, no Brasil, o organismo representativo.

Um convite inesperado

Meus contatos com a UNESCO prolongaram, pois o presidente do IBECC, que era então Levi Carneiro, pediu-me telegraficamente, para, na qualidade de segundo secretário do mesmo, fazer o estágio a que a UNESCO tem o hábito de convidar – como continua a fazer até hoje, rotativamente – os secretários de suas comissões nacionais. Dessa vez não tinha havido intervenção da minha parte. As instruções vindas do Rio constituíam autêntica surpresa; causaram-me, até, certo embaraço, tive de pleitear uma redução do estágio , pois devia retornar a Lisboa; e de Lisboa ao Rio. Durante umas duas semanas submeti-me à estafante série de entrevistas previstas no programa do estágio . E iam elas em meio quando outra ocorrência inesperada e de maior vulto veio perpetuar todos os meus projetos. Ventt Lawler, a secretária executiva da Music Educators National Confecence, dos Estados Unidos, que eu havia conhecido em Washington, e que havia estado no Brasil, sucedera a Gustavo Durán como Chefe da Divisão de Artes e Letras da UNESCO. Um belo dia, conversando comigo, ela me perguntou, à queima-roupa, encarando-me com aquele seu olhar de aço, parecia querer desvendar o que em suas respostas o interlocutor teria preferido encobrir, se eu não aceitaria um posto na secretaria da UNESCO, em Paris; a resposta teria de ser dada logo, pois estávamos às vésperas da segunda sessão da Conferência Geral e era preciso tomar uma decisão antes que os diretores deixassem Paris. Pedi algumas horas de reflexão e acabei aceitando, animado por minha mulher e a aconselhando-me com Paulo Carneiro.

Produção

A UNESCO e a música:

muito pouco havia sido feito, até então pela UNESCO, no terreno da música. Um inquérito sobre as condições da vida musical, nos vários países e um vago projeto de discografia internacional a ser submetido à Conferência Geral eram as únicas coisas que constavam dos documentos oficiais. A discografia seria, no terreno da música, o equivalente dos catálogos de reproduções coloridas de obras de arte que iriam constituir a parte essencial do programa da UNESCO no setor das artes plásticas.

Conferência geral no México:

foi no México, para onde parti em fins de outubro, que nos bastidores da segunda sessão da conferência geral, comecei a delinear um plano de ação viável, por fim inscrito no programa aprovado pelas delegações. Esse plano baseava-se no projeto de discografia internacional, já aludido, e já submetido à aprovação da conferência, e na criação de um organismo de ação mundial, a exemplo do que se projetava no terreno do teatro, com a criação do seu Instituto Internacional. A idéia de constituir um organismo desse gênero vinha de Charles Seeger, meu velho amigo, então Chefe da Divisão de Música e Artes Plásticas da União Pan-Americana. (...) Certas delegações de grandes países acreditavam que o problema número um da UNESCO deveria o de atingir as massas populares, fazer-se conhecida, e que só os projetos tendo esse objetivo, pertencendo ao âmbito do que era barbaramente chamado de Mass comm. – informação popular – mereceriam aprovação e aplausos. (...) Uma senhora da delegação dos Estados Unidos, que eu sabia ser das relações de Charles Seeger, e que nunca mais tive ocasião de encontrar, Mrs. Helen White, prontificou-se a propor à conferência um projeto de criação de organização musical internacional que redigi para ela, a seu pedido. (...)

A de criação do Instituto Internacional de Teatro só havia sido aprovado depois de muita discussão e graças à tenacidade do dramaturgo inglês J. B. Priestley, que tinha sido o seu inspetor. (...)

Dias mais tarde, com a conferência já se aproximando do fim, os dois projetos – Teatro e Música – foram adotados em plenário, numa sessão noturna, meia-noite já passada, a fadiga contribuindo, como sempre, para atenuar as resistências ...

A seção de música:

(...) a situação da seção de música, que estava a meu cargo, ainda era bastante confusa. Havia um programa delineado, mas faltavam meios para executá-lo.

No tocante à criação de uma organização internacional, destinada a apresentar os interesses da música e dos músicos, facilitando suas relações com a UNESCO, um exame preliminar da situação levara-me à convicção de que havendo, já, organizações internacionais antigas e sólidas nesse setor, (...) não era aconselhável ignorá-las e promover a fundação de uma nova sociedade que fatalmente entraria em competição com elas. Sondagens foram feitas, junto a estas organizações (...), para saber se estariam dispostas a unir-se numa espécie de federação, sob os auspícios da UNESCO. Federação que finalmente tomou a designação de conselho: o Conselho Internacional de Música, destinado a agrupar não somente as organizações em questão, como também as nacionais, de cada país, reunidas em Comitês Nacionais de Música, além de um certo número de personalidades escolhidas pelos seus títulos e por sua indiscutível projeção na vida musical contemporânea.