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Carta de Luiz Heitor para o Musicólogo Vasco Mariz

Carta de Luiz Heitor para o Musicólogo Vasco Mariz agradecendo a publicação de sua biografia no livro Três Musicólogos Brasileiros.

Carta de Luiz Heitor para o Musicólogo Vasco Mariz

Parte 2 Carta de Luiz Heitor para o Musicólogo Vasco Mariz agradecendo a publicação de sua biografia no livro Três Musicólogos Brasileiros.

Três representativas personalidades da música brasileira que não só tiveram contato, mas nutriram um grau profundo de amizade com Luiz Heitor: os musicólogos Vasco Mariz e Mercedes Reis Pequeno e do compositor Marlos Nobre trazem em seus depoimentos informações que contribuem para um melhor esclarecimento do perfil de Luiz Heitor Correa de Azevedo. Os depoimentos ajudarão a esclarecer sobre as contribuições do musicólogo para a música brasileira e também trarão, a partir de visões particulares, um pouco sobre sua personalidade. Iniciando os relatos pelo musicólogo Vasco Mariz, o primeiro biógrafo de Luiz Heitor, em entrevista no ano de 2008, comenta que

LH foi o mais competente musicólogo de sua geração e um modelo para os estudiosos da música brasileira erudita e folclórica. Não tinha inimigos e foi uma personalidade muito querida, já que ele estava sempre pronto ajudar e aconselhar seus colegas. No meu caso, ele fez o prefacio do meu livro sobre Villa-Lobos, em 1947, e me deu ótimas sugestões enquanto eu escrevia a "Historia da Musica no Brasil", em 1982. Eu vivia em Israel, onde era Embaixador do Brasil e lhe telefonava com freqüência fazendo consultas.

Mercedes Reis Pequeno gravou a sua entrevista em vídeo. Aluna de Luiz Heitor no final dos anos 30, na primeira turma de Folclore Nacional, foi secretária do adido cultural dos EUA, Carliton Sprague Smith, no período de residência no Rio de Janeiro. Segundo Pequeno, o que lançou Luiz Heitor no cenário mundial foi primeiramente a Revista Brasileira de Música e depois Carliton Sprague Smith, que o convidou para fazer um estágio na Biblioteca do Congresso. Lá, a convite de Charles Seeger, Luiz Heitor tornou-se consultor do Departamento de Música da União Pan-Americana. Pequeno informa que Luiz Heitor era um homem de gabinete, de estudos, mais introspectivo.

A musicóloga relata que a aproximação com Seeger originou outro convite para fazer o verbete sobre a música brasileira do Handbook, publicação americana, o periódico tinha então como editor chefe Willian Berry. Este fato deu origem ao Livro Bibliografia Musical Brasileira (1820-1950), com a colaboração de suas alunas Mercedes Reis Pequeno e Cleofe Person de Matos. Segundo Pequeno, devido ao extenso material bibliográfico levantado sobre a Música Brasileira, tornou-se inviável sua publicação no Handbook, ocasionando sua edição em livro no Brasil, atualizada por ela após 10 anos, em 1952.

Carta enviada por Luiz Heitor

Figura 4 ­ carta enviada por Luiz Heitor. Acervo particular de Mercedes Reis Pequeno.

Pequeno considera Luiz Heitor um personagem importante para a cultura brasileira, pois sua proximidade com parte representativa da intelectualidade nacional e mundial, a dedicação dele para a projeção da música produzida do e no Brasil no eixo EUA - Europa, e o apoio às novas gerações de músicos brasileiros que buscavam o aprimoramento no exterior são contribuições que honram nosso país.

O último entrevistado, o compositor Marlos Nobre, em entrevista escrita concedida por e-mail em 2008, disse que seu primeiro contato com Luiz Heitor foi em 1966, quando em retorno do Festival de Primavera de Praga, passou por Paris para representar o Brasil na Tribuna Internacional de Compositores da UNESCO, na qual apresentou pela primeira vez, na Europa, a obra "Ukrinmakrinkrin". Pela ocasião, Luiz Heitor o convidou para jantar e começou "uma profunda e intensa amizade pessoal". Quando assumiu a presidência do Comitê Brasileiro de Música da UNESCO, Marlos Nobre propôs o nome do musicólogo para membro de honra do CIM/UNESCO, sendo eleito por aclamação. Nas palavras do compositor, em síntese, expressam opinião sobre o legado do musicólogo:

Luiz Heitor era dessas pessoas que ajudava sem que você soubesse disso (...)
O pequeno apartamento de Luiz Heitor em Paris era o centro europeu do acolhimento dos músicos brasileiros tanto na França como na Europa. Ele recebia ali, sistematicamente, todos que chegavam a Paris. (...) Por temperamento, ele ajudava a todos. Ajudava espontaneamente, não para cobrar depois essa atenção, mas como exercício mesmo de sua dedicação à música do Brasil. Este era, portanto, o lado mais comovente de Luiz Heitor: sua absoluta entrega à causa da música brasileira no exterior. (...)
(...) o legado do Luiz Heitor está também na dimensão do seu relacionamento humano e profissional com os maiores músicos e compositores do seu tempo, tanto brasileiros como estrangeiros. Pierre Boulez, para só citar um, frequentava seu apartamento com assiduidade. Luiz Heitor teve uma influência profunda na segunda metade do século XX, pela sua profundidade de pensamento na música deste período.

Esses depoimentos, envolvidos de sentimentos de amizade e carinho, se definem como verdades individuais ou visões particulares a respeito de Luiz Heitor. Obviamente, tornam-se referência em princípio, pois, através das observações resultantes desses contatos pessoais, formaram-se opiniões com certa semelhança, senso comum, que trazem deferência a esse personagem da música brasileira.

 

Depoimentos do passado

Mario de Andrade fala a respeito da aula inaugural da disciplina de folclore nacional do Instituto Nacional de Música:

...as pesquisas coletivas, os trabalhos de seminário que os prof. Luiz Heitor Correa de Azevedo se propôs a fazer, como disse na sua aula inaugural, são de enorme utilidade para um futuro conhecimento técnico das nossas populações básicas.

— Lamas, 1985:56

Renato Almeida comenta sobre as pesquisas de campo em regiões do Brasil para a coleta do nosso folclore realizada entre 1942-1946:

O professor Luiz Heitor Correa de Azevedo vem realizando um programa de estudo e de colheita folclórica em todo o Brasil. (...)
O esforço do prof. Luiz Heitor é, pois, do mais alto interesse e merece ser louvado com o maior entusiasmo por quantos se interessam pelo folclore musical e pela musicologia no Brasil. Poderia dizer mesmo pelos estudos brasileiros, a que essa documentação abre as mais largas perspectivas.

— Lamas, 1985:58

Andrade Muricy depoimento exclusivamente elaborado para edição comemorativa dos 80 anos de Luiz Heitor:

Companheiro de Luiz Heitor Correa de Azevedo em muitas e várias atividades no campo da vida musical, sou daqueles que sempre lamentam o deslocamento para a grande cena internacional, mundial, que é Paris, o que nos privou de sua participação em tantos prélios, campanhas culturais e realizações musicais nesta nossa atormentada e, no entanto, rica e fecunda terra. A sua ausência, primeiramente, impediu que pudesse prosseguir em suas andanças e pesquisas histórico-musicais e folclóricas. Do adquirido, tivemos aquela valiosa obra "150 anos de música no Brasil" (1800-1950) Ed. José Olimpio, 1956, sem dúvida um largo passo adiante relativamente aos trabalhos brasileiros do gênero. A sua "Relação de óperas de autores brasileiros" (1938), a importante "Bibliografia musical brasileira" (1952) bem como a coletânea "Musica e Músicos do Brasil" (1950), dava-nos o direito de esperar numerosa outras contribuições de Luiz Heitor a nossa escassa bibliografia musical.

— Lamas, 1985:59

Almeida Prado depoimento exclusivamente elaborado para edição comemorativa dos 80 anos de Luiz Heitor:

A figura serena, amiga, cristã, de um homem cujo sorriso significa um coração sempre disposto a acolher uma inteligência brilhante, mas não demonstrativa de vaidade, uma capacidade de trabalho contínua e eficaz, essa figura humana, cheia de sabedoria, é Luiz Heitor Correa de Azevedo.

— Lamas, 1985:63

Claudio Santoro depoimento exclusivamente elaborado para edição comemorativa dos 80 anos de Luiz Heitor:

Luiz Heitor Correa é o primeiro embaixador Cultural de nosso país, em Paris. (...)
Seus livros, suas pesquisas o tornaram internacionalmente conhecido. O seu jeito simples lhe fez amigo querido de todos nós músicos brasileiros.

— Lamas, 1985:64

Cleofe Person de Mattos depoimento exclusivamente elaborado para edição comemorativa dos 80 anos de Luiz Heitor:

80 anos de vida. Há vidas bem vividas, e será o caso de Luiz Heitor; (...), as atenções voltadas para a Revista da Escola de Música seria o prenúncio de mais logos andares pelos caminhos do Mundo, sempre a serviço do Brasil e de sua gente, da música e de sua história. (...) O menos que se pode dizer de Luiz Heitor é que tornou o Brasil mais conhecido

— Lamas, 1985:65
Professora Dulce Lamas

Professora Dulce Lamas

Carta de Luiz Heitor para o Musicólogo Vasco Mariz

Carta da esposa de Luiz Heitor, Sra. Violeta Correa de Azevedo, enviada a professora amiga Dulce Lamas

Dulce Lamas

Não se pode deixar de reconhecer, a relação à música brasileira, que ela deve muito a Luiz Heitor, como um dos seus melhores e dos mais profundos conhecedores. (...)
Para se fazer a apreciação da posição de Luiz Heitor na musicologia universal é bastante que se analise a bibliografia de seus escritos.
(...), aborda desde a pesquisa da música tradicional das camadas mais modestas da estratificação social, do seu país, até a música erudita contemporânea e universal.

— Lamas, 1985
 

Luiz Heitor (autocrítica e crítica)*

Toda sociedade caminha impulsionada por duas forças contraditórias: a tradição e a inovação. A primeira a quer dominada pelo passado; a segunda lhe propõe o futuro. A música, que sempre foi considerada a mais social de todas as artes, reflete de maneira exemplar essa dupla tendência. Desde a mais remota antiguidade sua evolução foi assinada pelo zelo de uns, na defesa da tradição, e a progressão turbulenta de outros, tudo querendo reformar.
A criação coletiva foi, desde todos os tempos, praticada nas chamadas músicas tradicionais ou naquelas, menos antigas, que florescem no continente americano, onde os modelos europeus,(...), sofrem contínuas transformações. É a caso do choro, no Brasil (...) ou o do jazz norte-americano. Aliada ao improviso a criação coletiva é uma das fontes de energia que a música contemporânea não quer mais ignorar. (...) Sei, muito bem, (...) que se a música criada coletivamente está em voga é por motivos bem sisudos, dos quais não estão excluídas preocupações de ordem sociológica.
A América Latina foi um centro de transformação das músicas provenientes das tradições européias e não uma fonte da qual surgisse uma cultura musical própria. (...)
Ora, a música latino-americana é uma tradição viva e em plena expansão. (...)
A música popular da América Latina, como a conhecemos hoje em dia, espelha a diversidade de elementos étnicos e culturais de que nasceu. Não é a mesma, em qualquer lugar, e a dosagem desses elementos constitutivos determina, em cada região, o seu aspecto atual. É isso que desconheceria o observador europeu e o leva, muitas vezes, a proferir apreciações ingênuas ou grosseiramente errôneas, quando se trata de aquilatar a originalidade dessa música e de discernir o seu caráter próprio.

— *Trechos tirados do artigo Tradição e Música Contemporânea (Lamas, 1985)
 

Luiz Heitor (opiniões diversas)**

Em relação ao patrimônio histórico brasileiro:

Sempre me pareceu que esse órgão podia patrocinar as pesquisas de musicologia histórica. (...) quanto à etnomusicologia, a campanha nacional de folclore, de um lado, o Serviço de Proteção aos Índios (pela sua Divisão de Pesquisas Etnográficas), e de outro, parecem-me as instituições mais indicadas. Tive sobre esse assunto, uma troca de correspondência com o Rodrigo Melo Franco de Andrade , o ano passado. Mas de qualquer maneira, a aliança com o SPHAN não pode senão trazer benefícios.

Um assunto interessante, tratado em carta de 13 de maio de 1969, diz respeito a uma possível criação de um curso de pós-graduação em Folclore na Escola Nacional de Música. Sondado a respeito, o musicólogo, emite a seguinte opinião:

Não estou a par da projetada reforma da Escola, para poder responder a uma questão sobre o Mestrado e o Doutorado em Folclore. Penso que ambos serão em Música, podendo ser o Folclore a disciplina principal, determinando a escolha do assunto da tese. Mas não vejo muito bem "Doutores em Folclore" pererecando por esse Brasil a fora... Nos Estados Unidos o Doutorado em Música (Mus. D.) o que conduz ao magistério, nas grandes universidades é Doutorado em Filosofia (Ph. D.), muito embora o estudante oriente seus conhecimentos, principalmente, para o lado da música. Por exemplo, para um estudante em etnomusicologia, exigir-se-á o estudo da Antropologia, da Lingüística, de Línguas estrangeiras, etc. nenhum aluno de música, aqui, freqüenta, só, a Escola de Música. A Música é o que eles chamam o major (principal), mas o estudante tem que completar a sua cultura cursando o College of Arts in Sciences (Arts no sentido de Ciências Humanas; essa é a tradição anglo-saxônica). O abismo que ainda separa a nossa estrutura tradicional da que vigora nos Estados Unidos é tão grande que não poderá ser de uma vez só que os padrões tenderão para uma maior aproximação. Todo problema reside no atual isolamento, entre elas, das nossas escolas e faculdades. O que diria a D. Joanídia, de um aluno de Ciências Econômicas que viesse cursar, na Escola de Música, somente História da Música ou Folclore? Sendo-lhe atribuído crédito por essas matérias? Esse é o sistema aqui. O aluno, assistido por conselheiros, que são seus professores, organiza o seu currículo. E está claro que há matérias obrigatórias e pré-requisitos. Ninguém poderá estudar Geometria não-Euclidiana sem conhecimentos de matemática, etc. tudo isso e determinado pelo major e minor escolhido pelo estudante. Mas um aluno pouco dotado para a música o professor não consentirá que ele tome música como major. E dentro da música o major será canto, instrumentos, composição, educação, etc.

As relações com jovens pesquisadores, estudantes de música, novos talentos brasileiros, estão presentes na vida profissional do musicólogo. Este convívio de Luiz Heitor com músicos jovens é facilmente percebido em sua correspondência. Em carta à Dulce Lamas, demonstra grande satisfação e faz elogios sobre personalidades hoje consagradas em suas atividades a favor da Música Brasileira:

O J. A. Almeida Prado, vencedor do Concurso de Composição do Rio de Janeiro, está agora em Paris, e é um rapaz de primeiríssima ordem, como agente é levado a pensar que nem existe mais, nesse mundo... Tenho-o visto bastante. Um outro compositor chegou agora aqui, que saiu da escola Guerra-Peixe: José Maria Neves. Também muito simpático. E o Cláudio Santoro, com toda sua notoriedade e os seus descontentamentos (diz que não volta mais pro Brasil) também está parando em Paris. Como vê, pois, o Brasil não está ausente da Cidade Luz.

O compositor brasileiro Jorge Antunes é citado, em carta de junho de 1971 , com grande satisfação, pois informa sobre sua vida e dos bons resultados profissionais do compositor:

Jorge Antunes – V. sabia que se tinha casado com Mariuga, que foi nossa aluna? Tiveram um filho que nasceu em Utrecht, recebeu o nome de Mauritz e será batizado em meados desse mês, tendo por padrinhos Violeta e eu. Jorge está se lançando brilhantemente, no cenário internacional, como compositor. A sua “Tartínia 1970”, para orquestra , obteve o terceiro prêmio no Concurso Internacional de Triste, o ano passado; e em abril último, em Milão, a sua partitura sinfônica intitulada “Isomerism” obteve o primeiro prêmio do Concurso da famosa orquestra de câmara “Angelicum”, que já esteve no Brasil. Esta semana mesmo, no Festival da Sociedade Internacional da Música Contemporânea , em Londres, a “Tartínia 1970” será executada por escolha especial do júri que organizou o Festival. Há mais de vinte anos que não havia uma obra brasileira executada nesse Festival. O Jorge é muito boa pessoa; e igualzinho a todos os outros, que dão cabeçada antes de encontrar o seu caminho. Salvo casos patológicos, os extremismos passam, aos trinta anos...

— ** correspondência com Dulce Lamas. Fonte Biblioteca Alberto Nepomuceno da UFRJ.
 

Posicionamentos de Luiz Heitor

Luiz Heitor revela-nos um tipo de narrativa que destaca o Brasil como um país que solucionou o grande problema de então: sua independência criativa da música de tradição européia (Azevedo, 1950:15):

Vede o que é a sua música: num Continente inteiro que ainda não conseguiu libertar-se da formidável tutela européia, na tarefa de criar novas formas de expressão sonora, um país realizou integralmente a sua independência artística: [...] hoje, a música brasileira é olhada com respeito e interesse porque nossos Mestres a tornaram diferente rica em elementos próprios e sugestões originais. Na verdade a situação privilegiada que conquistamos, no que diz respeito à criação musical, vai muito além da média de outras atividades artísticas, intelectuais ou materiais, em nosso país.

O alcance de Villa-Lobos da plenitude do movimento modernista em prol da "música artística" "genuína" brasileira (Azevedo, 1950:35):

Villa-Lobos (...) não foi o pioneiro desse movimento; (...) Mas foi, e continua sendo o seu principal representante; aquele que levou à plenitude, seja pela autenticidade do material empregado e aguda percepção do espírito nacional, seja pela forma superior do seu aproveitamento, em obras animadas pelo verdadeiro sopro da grande arte. Porque esse compositor irregular, que nos aparece – em pessoa ou em sua produção artística – como a mais viva repulsa do academismo, cuja obra às vezes débil, sob o ponto de vista da grande arquitetura musical, está cheia de percepções geniais, de pequenos achados surpreendentemente felizes, é, indubitavelmente, um dos mais puros e mais poderosos criadores de nossa época.

Em estudo sobre Moda de Viola, publicado na revista Cultura Política (Azevedo, 1943:183) , deixa transparecer seu pensamento sobre a música popularesca divulgada nas emissoras de rádio do Rio e São Paulo:

Não pense que se trata, aí [na moda de viola], de imperícia dos cantadores, de incapacidade deles para a emissão de sons justos. (...) Na interpretação [de um mesmo grupo de cantadores] de gêneros musicais diversos: de um lado a moda tradicional, arrastada, cantada a duas vozes; de outro a música sem nenhuma autenticidade folclórica, evidentemente imitada das irradiações do repertório popularesco transmitido pelos estúdios de São Paulo e do Rio. Pois bem, enquanto a "moda" se acha interpretada com a frouxidão de tom característica, os números da segunda espécie, entoados em uníssonos, bem ritmadamente, não discrepam da mais exata afinação.

As palavras de Luiz Heitor, em entrevista ao Jornal O Globo, 12 junho de 1941, sobre origens do folclore:

Durante muito tempo os folcloristas pensaram que as grandes cidades deveriam ser excluídas das pesquisas populares, porque era impossível a existência de um autêntico folclore urbano. Hoje em dia, entretanto, é bem outra maneira de encarar esta questão; os mais conceituados folcloristas contemporâneos estão de acordo em que não somente há folclore nas grandes cidades, como há mesmo tradições e costumes populares que lhe são peculiares, que só nelas podemos encontrar e que constituem, portanto, a face original , própria do seu folclore.

— apud Aragão, 2005:70